domingo, 24 de outubro de 2010

Fazendo a diferença


É inefável a sensação de uma cultura diferente. Obviamente não posso dizer que exista uma cultura melhor ou pior que outra, mas há hábitos que aqui vejo que devo levar comigo, assim como devo ensinar alguma coisa que considero que faça a vida deles aqui melhor.
Quando eles viram a sacolinha de lixo que deve ser colocada dentro do carro do cliente após a lavagem, me perguntaram o que era aquilo. Não conseguiam compreender sua utilidade, e riam quando contei para que servia. Questionaram-me dizendo que os nossos clientes não vão entender o que é aquilo. Previ uma mudança de cultura. Disse a eles que não fazia parte dos nossos valores atirar o lixo pela janela do carro e aí talvez eu tenha ido longe demais falando muito tempo sobre a importância da conservação do meio ambiente, da defesa dos direitos humanos e tudo mais que tange a sustentabilidade. Eles me olhavam com sede de informação, com vontade de aprender, com humildade suficiente para me ouvir mesmo sabendo que, a princípio, aquilo não fazia sentido algum para eles. Isso foi muito bonito: a maneira como eles estão abertos para novos conceitos. Ao final da conversa, eles estavam totalmente convencidos da utilidade de um simples saco de lixo e totalmente engajados em tentar convencer nossos clientes a usarem. Mas não parou aí. Ao longo dos dias, a sujeira diminuiu, os cestos de lixo do prédio aumentaram e eles me disseram que estão fazendo isso na casa deles também. Fazer a diferença depende de cada um de nós. E eu que achei que isso era apenas uma frase feita...

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Quando achamos que sabemos algo, só vimos a ponta do icebergue...


Não sei como aconteceu, mas estou aprendendo a língua local, o telugu. Entendo grande parte das coisas e posso me comunicar um pouco. De hindi, não sei nada ainda...
Deixo para contar sobre o casamento depois, estou cansada, mas gostaria de deixar uma foto para vocês: meus "alunos" e futuros gerentes, treinadores e supervisores da DryWash. Se eles soubessem que eu aprendo mais com eles que eles comigo, saberiam quem é a real aluna desta situação...

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Um- sem ordem.


Hoje é dia de Dasara, uma das deusas hindus que se preocupam com os princípios femininos. As ruas estavam repletas de flores,doces e sapatos, já que é preciso descalçar-se para entrar nos templos. Caminhei sem um destino certo por avenidas que mesclam arquiteturas islâmicas, românticas e o que chamei de “beira de estrada”. Aqui não tem calçada, as pessoas urinam na rua e as lojinhas de vendas são todas improvisadas com ferros e letreros mal pintados. Ao entrar no templo, uma moça mergulhou seu dedo em um recipiente de pó vermelho e marcou a minha testa com um círculo que chamam “terceiro olho” para enxergarmos com a alma as situações do dia a dia, atiçando nossa sensibilidade. O responsável pelo culto colocou água, açúcar em minhas mãos e ordenou que eu tomasse. Depois me passou algo na cabeça e eu fui embora feliz, sentindo que já tinha feito a minha primeira inserção na cultura indiana do dia.
Faz quase uma semana que estou aqui e ainda não consegui me acostumar muito bem com o trânsito. Fiquei sem comprar um batom hidratante pros lábios por dias, por que não tinha coragem de atravessar a rua. Minha pele descasca. A água daqui contém muito sal e é inevitável que a pele branca sofra muito com o ressecamento. Mas tudo aqui fica fácil quando o indiano te estende a mão para ajudar. E aqui, eles andam de mãos estendidas...vendo minha agonia por não encontrar uma simples manteiga de cacau, meus treinandos fizeram, sem eu saber, uma busca pelo batom e o encontraram. Por falta de um, ganhei dois.
Acordo cedo, trabalho muito e quando volto, já sem muita energia, trabalho mais respondendo emails do Brasil, mas quando desço para jantar, só de ver o sorriso dos garçons e a vontade deles em que eu encontre uma comida que me satisfaça, com pouca pimenta, me ajuda a reenergizar.
Aqui eu sou uma estranha. Saio na rua e todos olham para mim de uma maneira curiosa. Não sei o que eles pensam. Sei que hoje eu fui visitar um Forte Islâmico muito bonito. Eu estava de regata, mas com um lenço de furinhos cobrindo os ombros. Mesmo assim, as pessoas que me acompanhavam tiveram que colocar outro lenço em mim. Aqui não se pode mostrar os ombros, principalmente em região com muitos homens, como a que fui hoje. Por onde eu passo as pessoas reparam em mim, tiram foto de mim e algumas tem a ousadia de pedir para tirar foto comigo. Os locais dizem que eles se encantam pela minha cor, branca. Chego a ficar constrangida na rua e é impossível eu andar desacompanhada.

Ontem saí pela noite. Fui a um concerto de piano onde tocaram e cantaram um trecho de uma ópera alemã que não me lembro o nome agora. E eu tenho que confessar que apesar de ser fria para muitas coisas, eu choro quando ouço uma boa música. Difícil é explicar isso para o indiano que me acompanhava....
Depois fui para uma festa latina, com salsa e cheguei no hotel sem sono. Ao passear pelos corredores vi um salão de festa e abria porta. Era um casamento, à indiana...óbvio que ao me verem logo me convidaram para entrar e participar da festa, mas isso eu conto depois, por que são quase uma da manhã e amanhã é um dia inteirinho de treinamento...a inauguração da DryWash está chegando e eles tem muito que aprender ainda. Como é difícil estar aqui, mas como é fácil estar aqui...

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Marco Zero

Eleições, acusações e defesas de governos corruptos, denúncias de lixos sendo jogados em locais inapropriados, caos do trânsito e uma longa seção de esportes com destaque para o cricket. Essas eram as matérias predominantes do Times India de hoje. Nem pareceu que mesmo depois de 30 horas de viagem , eu estava num local que não fosse o Brasil, com exceção da substituição do futebol pelo cricket. Mas bastou ligar a televisão e, ao passar os canais, me deparar com o Pica Pau falando Telugu,” Barrados no Baile” falando híndi e uma televisão local reportando notícias num inglês. Não o inglês- inglês aprendido nas salas da Cultura Inglesa, um inglês-indiano em que não apenas a pronúncia é outra, mas o repertório de palavras também o é.
No colégio, acho que lá pela terceira série, quando aprendemos a utilização da crase, o livro de português nos apresenta um exemplo trivial: “à francesa”. Oras, aos nove anos é muito difícil uma criança entender o que isso significa. Eu, por exemplo, apenas decorava o modelo do livro que queria dizer “à moda francesa”. Achava que aquilo tinha algo relacionado com a roupa e assim ficou guardado na minha memória por algum tempo, quando a experiência substituiu a memorização irracional por emotiva, e eu pude perfeitamente entender o porquê da crase. Este blog nada mais é do que a expressão do que aqui chamam de alma, de essência, obviamente distorcidas pela ação do que aqui chamam de corpo, à indiana, já que toda minha percepção será submetida a outro ponto de vista, desde a Índia. Não apenas um “eu à Indiana’ ou uma empresa “à indiana”, mas sobretudo um eu à indiana que jamais voltará a ser quem era, mas jamais será indiano. Enfim, um mix de experiências que usam da diversidade para se tornarem interessantes.
Ao final da leitura bastante familiar do jornal, havia uma matéria de Gupta que copio abaixo que ajuda a explicar por que estou aqui de uma maneira indiana.
“ If there is one thing equally sought by all, it is happiness. All beings constantly endeavor to seek more happiness through new means of comfort. Science, religion and spirituality all aim at marking human beings happier and, therefore, these are not contradictory paths that are loggerheads with one another. The three paths are complimentary being the essential attributes of three dimensions of human existence relation body, mind and soul.”
O que dizem os hindus, também pode ter sido dito por Platão, Freud, e tantos outros pensadores de uma outra maneira. É, não é apenas coincidência que algumas coisas se assemelhem ao Brasil, é simplesmente por que somos todos demasiadamente humanos e de uma maneira ou de outra somos semelhantes tanto na estrutura de raciocínio e nossos feitos como na nossa natural corrupção...