
Hoje é feriado de Diwali. Ontem também o foi. E amanhã, as pessoas continuarão a comemorar o tal Diwali. É o momento de comprar roupas novas e estreá-las, de compartir comida e principalmente de soltar todos os fogos de artifício que encontrar pela frente: Diwali é o caminho para a luz, a vitória do bem sobre o mal dentro de cada ser humano, já que foi nesse período do ano que aconteceu o assassinato de Narakasura, representante da categoria “malvados” na história do hinduísmo, do budismo do silkhismo ...deve ter muita gente soltando rojões neste final de semana.
O garçom do hotel me perguntou o que eu iria fazer no festival de Diwali.
- Trabalhar, ué.
Ele ficou perplexo. Era o momento de eu caminhar em direção à luz e comemorar as mudanças em mim que tinham me levado para um bom caminho, não trabalhar. Incentivou-me a comprar rojões e estourá-los em frente ao hotel.
- E você, o que vai fazer?
- Bom, eu vou trabalhar.- sorriu-me, nada contente.
Ele estava certo, realmente eu não trabalhei na sexta feira. Não porque eu não quisesse, mas por que ninguém que trabalha comigo foi trabalhar. Então, eu e meu querido companheiro de trabalho fomos dar umas voltas pela índia-sem-calçada. Fomos até o lago do Buda, demos a volta inteira, passando pelas favelas, pelos lixos, pelos condomínios de luxo, por muitas vacas sagradas e perdendo-nos no meio de uma comunidade Hindu. Veja, se você é estranho no meio das grandes avenidas, você não tem idéia de como será estranho no meio de uma comunidade, passando pelas casinhas. Fiquei assustada mesmo ao ver o rosto das pobres criancinhas ao me virem. Elas brincavam imersas nas suas fantasias e quando eu passava, era como se alguém tivesse jogado um balde de água fria em suas cabeças: arregalavam seus olhos como se tivessem visto um fantasma.
Depois de um mergulho antropológico pelas ruas de Hydrebad, voltei para o Hotel para finalizar meu fim-de-tarde com um tradicional chai, cujo meu corpo não teve nenhuma resistência, substituindo completamente o café. E, ao desaparecer do sol, eu estava em companhia do mesmo garçom que me perguntara o que eu faria no festival de Diwali, decepcionadíssimo por eu não ter comprado fogos.Estávamos conversando quando, De repente, a cidade inteirinha começou a acender suas bombinhas e foguetes e luzinhas e rojões e fogos e, por instantes, achei que esse povo ia explodir essa cidade. Mas não. Fui correndo às ruas ver aquela gente correr atrás de sua luz, todos reunidos num único sorriso indiano (que nunca vi nada igual) iluminando a cidade com sua alma. Era o festival das luzes.
