sábado, 6 de novembro de 2010

festival das luzes


Hoje é feriado de Diwali. Ontem também o foi. E amanhã, as pessoas continuarão a comemorar o tal Diwali. É o momento de comprar roupas novas e estreá-las, de compartir comida e principalmente de soltar todos os fogos de artifício que encontrar pela frente: Diwali é o caminho para a luz, a vitória do bem sobre o mal dentro de cada ser humano, já que foi nesse período do ano que aconteceu o assassinato de Narakasura, representante da categoria “malvados” na história do hinduísmo, do budismo do silkhismo ...deve ter muita gente soltando rojões neste final de semana.
O garçom do hotel me perguntou o que eu iria fazer no festival de Diwali.
- Trabalhar, ué.
Ele ficou perplexo. Era o momento de eu caminhar em direção à luz e comemorar as mudanças em mim que tinham me levado para um bom caminho, não trabalhar. Incentivou-me a comprar rojões e estourá-los em frente ao hotel.
- E você, o que vai fazer?
- Bom, eu vou trabalhar.- sorriu-me, nada contente.
Ele estava certo, realmente eu não trabalhei na sexta feira. Não porque eu não quisesse, mas por que ninguém que trabalha comigo foi trabalhar. Então, eu e meu querido companheiro de trabalho fomos dar umas voltas pela índia-sem-calçada. Fomos até o lago do Buda, demos a volta inteira, passando pelas favelas, pelos lixos, pelos condomínios de luxo, por muitas vacas sagradas e perdendo-nos no meio de uma comunidade Hindu. Veja, se você é estranho no meio das grandes avenidas, você não tem idéia de como será estranho no meio de uma comunidade, passando pelas casinhas. Fiquei assustada mesmo ao ver o rosto das pobres criancinhas ao me virem. Elas brincavam imersas nas suas fantasias e quando eu passava, era como se alguém tivesse jogado um balde de água fria em suas cabeças: arregalavam seus olhos como se tivessem visto um fantasma.
Depois de um mergulho antropológico pelas ruas de Hydrebad, voltei para o Hotel para finalizar meu fim-de-tarde com um tradicional chai, cujo meu corpo não teve nenhuma resistência, substituindo completamente o café. E, ao desaparecer do sol, eu estava em companhia do mesmo garçom que me perguntara o que eu faria no festival de Diwali, decepcionadíssimo por eu não ter comprado fogos.Estávamos conversando quando, De repente, a cidade inteirinha começou a acender suas bombinhas e foguetes e luzinhas e rojões e fogos e, por instantes, achei que esse povo ia explodir essa cidade. Mas não. Fui correndo às ruas ver aquela gente correr atrás de sua luz, todos reunidos num único sorriso indiano (que nunca vi nada igual) iluminando a cidade com sua alma. Era o festival das luzes.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Desejar


Sentada nesta sala de chão de granito claro, vendo todas essas cadeirinhas vermelhas vazias apontando para mim, me dá uma certa melancolia. Faz três semanas que estou aqui, tentando passar toda a informação necessárias para esses treinandos que a cada dia de treinamento vêm até mim dizer a sua gratidão por todo o conhecimento que divido com eles. Nunca tinha sentido a gratidão, nunca tinha a visto de uma maneira tão transparente e honesta.
Um dia qualquer da semana passada, os investidores internacionais deste projeto vieram se despedir de mim, já que iriam embora da Índia.
- Antes de ir, queremos abençoar você.
Claro, por que não? Eu não sou nada religiosa, não me prendo a nenhum conceito de deus e acho isso bom, por que eu consigo abraçar todas as crenças, tentar entendê-las sem preconceitos. Mas isso também é ruim por que eu não tenho uma fé definida e não tenho apoio ou parâmetros para algumas situações dolorosas. Enfim, cada um com suas escolhas...
Então, eles me trouxeram para dentro da sala que eu dou treinamento com todos os meus treinandos dentro, e me fizeram ajoelhar. Fazia muito tempo que eu não ajoelhava em subserviência a alguma situação respeitosa. Muito tempo. Dois deles colocaram suas mãos em meus ombros, um deles na minha cabeça, e tiraram de dentro do bolso um frasco de óleo que disseram ser de diversas regiões do mundo, todos misturados. Eles costumam abençoar os empreendedores e missionários que se lançam em diferentes países para tentar melhorar a qualidade de vida de um povo, seja através de um trabalho sustentável, utilizando recursos da comunidade local, seja através de informação, enfim...Fizeram-me fechar os olhos e rogaram zilhões de coisas bonitas para mim, desejando que em todos os lugares que eu passasse que eu fizesse alguma diferença e que meu caminho estivesse livre de empecilhos, etc, etc,e tc. Depois desejaram que eu percorresse o mundo para compartilhar o meu coração bom. Não sei exatamente o que disseram, não consigo me lembrar de tudo. Apenas sei que a sala ficou em silêncio e todos os meus 25 treinandos de olhos fechados desejando fortemente coisas boas para mim. Foi algo muito forte, emocionante.
Agora estamos chegando ao final do treinamento e as lojas começam a operar em 2 dias. Ainda temos alguns desafios de materiais para encontrar. Tivemos muitos problemas com o governo local, parece-me que tem pouca gente capacitada trabalhando na aduaneira...ou talvez muita gente corrupta. E por falar nisso, o PT está novamente aí...não que eu ache que o PSDB fosse mudar muita coisa, mas brasileiro sendo conivente com corrupção e não alternando governo é triste...Eu desejei muito que todo mundo tivesse votado nulo, mas não deu certo. Desejar apenas não te leva ao objeto desejado...é preciso sangrar.